segunda-feira, 27 de março de 2017



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017



domingo, 19 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

sábado, 24 de dezembro de 2016


Ouvi contar que outrora , quando a Pérsia tinha não sei qual guerra / quando a invasão ardia na cidade e as mulheres gritavam , /  dois jogadores de xadrez jogavam o seu jogo contínuo  / à sombra de ampla árvore fitavam o tabuleiro antigo / E , ao lado de cada um , esperando os seus momentos mais folgados / quando havia movido a pedra e agora esperava o adversário / um púcaro com vinho refrescava sobriamente a sua sede / ardiam casas , saqueadas eram / as arcas e as paredes , violadas as mulheres eram postas contra os muros caídos / trespassadas de lanças,  as crianças eram sangue nas ruas ... / Mas onde estavam , perto da cidade / E longe do seu ruído , os jogadores de xadrez jogavam o jogo de xadrez  / Inda que nas mensagens do ermo vento / lhes viessem os gritos , E, ao reflectir soubessem desde a alma , que por certo as mulheres e as tenras filhas violadas / eram Nessa distância próxima , Inda que no momento em que o pensavam / uma sombra ligeira lhes passasse pela fronte alheada e vaga / breve , seus olhos calmos / volviam sua atenta confiança ao tabuleiro velho /  quando o rei de marfim está em perigo / que importa a carne e o osso das irmãs e das mães e das crianças ? / quando a torre não cobre a retirada da rainha branca / o saque pouco importa / e quando a mão confiada leva o cheque / ao rei do adversário , pouco pesa na alma que lá longe , estejam morrendo  filhos ,  mesmo que de repente sobre o muro / surja a sanhuda face / dum guerreiro invasor e , breve em sangue ali cair , o jogador solene de xadrez , o momento  antes desse ( é ainda dada ao cálculo dum lance para efeito horas depois ) É ainda entregue ao jogo predilecto / dos grandes indif'rentes , caiam cidades , sofram povos , cesse a liberdade e a vida / os haveres tranquilos e hábitos , ardem e que se arranquem / mas quando a guerra os jogos interrompa , esteja o rei sem cheque / e o de marfim peão mais avançado / pronto a comprar a torre / meus irmãos em amarmos Epicuro , e o entendermos mais , de acordo com nós-próprios do que com ele / aprendamos na história dos calmos jogadores de xadrez , como passar a vida . / Tudo o que é sério pouco nos importe , o grave pouco pese / o natural impulso dos instintos , que ceda ao inútil gozo ( sob a sombra tranquila do arvoredo ) de jogar um bom jogo / o que levamos desta vida inútil , tanto vale se é a glória , o amor, a ciência, a vida , como se fosse apenas a memória de um jogo bem jogado / e uma partida ganha a um jogador melhor / a glória pesa como um fardo rico / a fama como a febre , o amor cansa porque é a sério e busca / a ciência nunca encontra / e a vida passa e dói porque o conhece / o jogo do xadrez prende a alma toda mas, perdido  pouco , pesa / pois não é nada / ah, sob as sombras , que sem querer nos amam , com um púcaro de vinho , ao lado e atentos só à inútil faina / do jogo do xadrez , mesmo que o jogo seja apenas sonho / e não haja parceiro , imitemos os persas desta história / e enquanto lá fora , perto ou longe / a guerra e a pátria e a vida , chama por nós deixemos / que em vão nos chamem , cada um de nós / sob as sombras amigas / sonhando eles , os parceiros e o xadrez , a sua indiferença . ( Fernando Pessoa , 01-06-1916 )       

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


quarta-feira, 30 de novembro de 2016









domingo, 13 de novembro de 2016


quarta-feira, 19 de outubro de 2016


sexta-feira, 14 de outubro de 2016













quinta-feira, 13 de outubro de 2016










quarta-feira, 12 de outubro de 2016





segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.
Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo.
O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro.
Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes, (...) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz (como não pensar é a parte melhor, de ser rico).
Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. (...) Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos.(...)" Bernardo Soares , in O livro do desassossego .

sábado, 1 de outubro de 2016


sexta-feira, 23 de setembro de 2016


segunda-feira, 19 de setembro de 2016