terça-feira, 1 de maio de 2012



E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse : «esta vida , como tu a vives agora e como a viveste , terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes e não haverá nela nada de novo , cada dôr e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande na tua vida , há-de te retornar na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo , esta aranha e este luar entre as árvores e do mesmo modo este instante e eu próprio . A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela , poeira da poeira ! Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasse assim ? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias : « Tu és um Deus e eu nunca ouvi nada mais divino !»Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti , assim como tu és , ele te transformaria e talvez te triturasse a pergunta diante de tudo e de cada coisa : « Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes ? » pesaria o mais pesado dos pesos sobre o teu agir ! Ou então , como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida para não desejar nada mais do que essa última , eterna confirmação e chancela ?

( Nietzche , Gaia)

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