segunda-feira, 13 de agosto de 2012

 
A certas horas , quando escurece , o dia faz-se num barco e eu vivo entre os livros . Passam-se semanas sem que eu converse ou me despoje . Todas as minhas frases , todo o meu quotidiano é meramente funcional .
Mas escrevo para mim e leio , só assim respiro e não enlouqueço . Ao princípio dava-me medo viajar sózinho . Lembra-me de ter atravessado o mar Atlântico desde a cidade do Sal ao ilhéu de Fernando de Noronha - lembra-me o fulgor invulgar das estrelas e das medusas . Nessa altura o deslumbramento esbatia todos os meus escrúpulos , todo eu era atrevimento . Medo já não sinto . Perdi quase tudo . O próprio sono me foge e a tristeza tornou-se uma coisa suportável , como um par de sapatos novos e apertados . Só os livros me não amargam , se estou parado . 
Aqui todos os dias iguais são iguais , com as mesmas doenças , as mesmas queixas , os mesmos lugares comuns , as mesmas iniquidades e circunstâncias , um enorme descaso que nem já tu disfarçarias .
Está escuro outra vez e a chuva no telhado eu a sinto como se caísse nos brandais . Esta noite será Telémaco o meu companheiro . Beberemos os dois o vinho dos sós e iremos procurar o seu pai primeiro em Ítaca , depois em Pilos e depois no reduto das ninfas . Antes de tudo isso não amanhecerá .
 
( S.T. Os diários de rapa Nuï )

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