segunda-feira, 3 de setembro de 2012


A fria claridade ( ensaio sobre a ignorância )

« Entrei numa livraria , pús-me a contar os livros que há para lêr e os anos que terei de vida . Não chegam . Não duro nem para metade da livraria . Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa . Senão , estou perdido . »

( Almada Negreiros )



Lisboa vive um segundo Verão - como se houvessem dois sóis ou uma imensa imaginação passasse por mim e eu ficcionasse excessivo que é Maio e não está frio .  Deve ser isso que acontece às iguanas das ilhas galápagos , um sol assim , deixa-me febril , corri a cidade o dia inteiro . Foi  na volta do dia , no regresso ao lugar onde agora escrevo , no fim dessa página cento e onze em que se faz a descrição fantástica da aldeia de Macondo , que entraram no autocarro apinhado de gente , duas estrangeiras - turistas - com a maior das certezas .
- Esta gente é doida , vir passear para longe de casa com uma cega...
Pousei o livro. Olho de viés para o autor do comentário sentado no banco ao lado do meu - um qualquer funcionário bancário ou amanuense em fim de carreira , de fato cinzento e gravata , lisboeta vencido , velho do Restelo . A frase soou por todo o autocarro e ninguém reagiu . Cada qual calou ou se pergunta sobre a justiça do achado . As duas mulheres estão sentadas lá na frente , alheias ao resto , a mais velha - talvez seja a mãe - olha pela janela e fala , vejo-lhe os movimentos dos lábios . A outra sorri atenta , é alta e tem o cabelo da côr da palha e os olhos fechados como se dormisse . Suponho se deleite com o que a outra lhe diz , que subimos uma colina por uma rua estreita ladeada de grandes árvores e o sol se põe sobre as casas de alvenaria e há barcos côr-de-laranja que cruzam incessantes o rio e meninos que regressam da escola e as estátuas dos leões de granito do Largo do rato parecem olhar para os eléctricos como se fossem gazelas no meio da erva .  Existindo atenção , o que é proibido sentir ? 
Volto para o livro esquecido no colo - sou um cego quando viajo . E muitas outras vezes , quando escrevo , quando trago pela mão um filho à cidade ou lhe conto uma história no fim do dia , torno-me eu nesse acompanhante de quem tacteia e de quem confia e se suspende nos outros. Não há ninguém mais capaz de viajar do que um cego , poucos têem essa inaudita coragem de se entregar e acreditar
O homem do comentário apeia-se na paragem da Avenida - os ombros descaídos como se saísse de uma grande luta perdida - e desaparece do meu campo de visão . As mulheres continuam lá na frente , falam e riem num natural alheamento. Passamos por igrejas e livrarias , é quase noite . Há pedintes nas escadas e gente que entra e sai desses lugares das verdades guardadas sem sequer se deter . Subo outra vez a rua do Carmo e vêem até mim os acordes de um fado antigo que a minha mãe cantava : « Tudo o que faço ou não faço / Outros fizeram assim / Daí este meu cansaço / De sentir que quanto faço / Não é feito só por mim. ». Estamos todos cegos , estamos todos cegos . Mas - também a mim - só o desânimo me impediria de viajar .

S.T. , In «Nove histórias» , todos os direitos reservados

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