terça-feira, 27 de novembro de 2012


A cidade era uma mulher , lugar de mil segredos . Cedo comecei a viajar e enlouqueci de memórias . Na minha pele mandei tatuar jardins e ruas e judiarias e casas e beijos e mortes , todas as indicações enfim  , para que me não pudesse perder . Pois depressa compreendi - tão laborioso era viver - que não bastaria um caderno ou uma gaveta cheia de retratos para me lembrar aonde eu tive a ousadia de ir . Com o tempo , tornei-me velho e alguns lugares esqueci . Certas noites , passo os dedos pelo meu corpo , como se o quisesse reconhecer  . Nas linhas da minha mão escreveram o nome de Samarcanda , mas não me lembro de ter estado lá . E esta rosa desbotada que eu vejo no espelho todas as manhãs , esta rosa pintada a tinta da china por baixo do meu mamilo , lembra-me o nome de alguém , mas quem , quem , quem ? Doi-me sobretudo , não me lembrar .  

( S.T. , Os diários de Rapa Nuï )

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