segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


( Escreveu o grande Jorge Luís Borges que a literatura não passa de um sonho conduzido . Talvez seja por isso que eu não tenho o arrojo de chamar literatura aquilo que escrevo , não saberia como mudar o mundo . Estes retratos todos fazem , quando muito , o diário de um aprendiz da indignidade . )

Quando falou comigo pela primeira vez , estava a chover torrencialmente . Estávamos no hall de um grande centro comercial e ela tinha um cartão de multibanco nas mãos - um cartão de multibanco maltratado e partido - e uma grande aflição nos olhos . Bom , eu sou um exagerado , talvez não fosse aflição , talvez fosse apenas dissabor , uma contrariedade , uma história insustentada .
- Não sei que faça , não consigo levantar dinheiro .
Olhou para mim como se me tivesse falado , tinha os cabelos molhados , um ar de rapariga alta , de perfume e vestido barato e uns olhos cansados , seria mesmo aflição ?
- Com esse cartão não vai conseguir , prende-o a máquina .
- Não sei que faça - repetiu-se - Vimos do hospital , passei pela farmácia , o cartão não funcionava , o meu marido tem o carro lá fora , estamos sem gasolina .
Olhei à minha volta à procura de uma saída . A chuva entretanto redobrara . Notei que trazia uma criança ao colo e outra pequenina agarrava-se-lhe à saia . Tinha vindo jantar com as minhas filhas , voltava para casa com elas de taxi  , a Mariana fazia dezasseis anos nessa noite .Tinha gasto uma fortuna e duas horas de avião para estar ali , tão pouco tempo . Lembrei-me de perguntar :
- Para que lado da cidade vão ? Talvez possamos ir juntos se me trouxer de volta para o meu Hotel . Entre pagar-lhe a si ou ao táxi , posso ser-lhe útil .
Levantei o dinheiro necessário , e entrámos no carro , um pequeno utilitário cheio de pequenos defeitos do uso excessivo . Conduziram vinte minutos em silêncio até à porta de casa Chovia sempre , a criança mais nova adormecera , a outra falava sobre a festa de aniversário e o presente que idealizara .
- Uma mesinha de madeira e uma cadeira , para eu pintar e estudar – disse exultante.
- Veremos – respondeu-lhe a mãe baixinho , num tom incrédulo - faz anos amanhã - explicou...
Voltámos para trás depois de ter deixado a Mariana e a irmã em casa . Não tive mais contacto com elas desde isto que conto , se eu não procurasse não me encontrava ninguém , talvez tenha ganho enfim o grande dom da invisibilidade. Parámos na estação de serviço e paguei a gasolina . Da loja de conveniência trouxe uma caneta e um chocolate.
-É para a menina . O que é que a irmã tem ?
- Fez febre e diarreia – vínhamos do hospital ….
- Está assim há muito tempo ?
- Há dois dias…
- E só vieram hoje ?
- …
- Posso ver a receita ?
Paracetamol , diclofenac , antibiótico monoterapêutico , a folha dispunha o tratamento convencionado para um quadro de gastroenterite pediátrica , quase trinta euros feitas as contas por cima ,
- E já aviaram isto ?
- Talvez amanhã eu receba – falou pela primeira vez o homem , com a voz cansada – já não foi fácil arranjar dinheiro para vir ao Hospital .
- E eu também não trouxe o cartão da segurança social , esqueci-me - acrescentou ela - Mesmo que tivéssemos o dinheiro ficava mais caro… Amanhã de manhã passo pela farmácia , a menina está melhor , já não tem febre …
- Sim , sim mamã , amanhã ela já vai estar boa para me ajudar a soprar as velinhas…
- Estou desempregado – falou o homem outra vez – a minha mulher está a fazer um curso de aperfeiçoamento , desses que são subsidiados . Tiraram-nos o rendimento mínimo e agora também o Abono de família , disseram-me para vender o carro , que se tínhamos carro tínhamos dinheiro , como é que eu posso ir procurar trabalho sem o carro ?
Contou-me que tinha três outros filhos de um primeiro casamento , tinha emigrado para os Estados unidos ,a aventura não tinha corrido de feição , voltara à terra e engravidara a Isabel , em dois anos fez-lhe duas filhas , ninguém lhe dava 19 anos , pois não ? era tão cuidada a Isabel…Isto era apenas um contratempo , ainda haviam de ser alguém..
Chovia e chovia e chovia – fez-se um longo silêncio até à chegada ao Hotel . O carro era minúsculo e escuro e estava ali no meio da praça de táxis quando eu saí para a luz de néon do hall e o perfume dos hóspedes e o conforto do que não estranhamos . Saí á pressa como se viesse de um grande incómodo , uma pontada de consciência...
- Boa noite – despedi-me .
- Obrigado por nos ajudar .
O carro subiu a rampa e desapareceu na estrada , virando á esquerda . Passei pelo hall e pedi a chave , levaram-me ao elevador e subi ao quarto . Da enorme janela molhada , via-se um ténue fio de luz sobre o mar cavo , disse para mim que eu ainda não sabia nada sobre a precariedade . Tomei um Whisky , deitei-me na banheira de água quente , apeteceu-me um cigarro . Tinha acabado de vestir o pijama quando me ligaram da recepção , uma pessoa reclamava por mim lá em baixo , precisava de me falar com urgência .
- Quem é ? perguntei
- Uma mulher , não quis dizer o nome – disse o homem na recepção .
Voltei a vestir-me e desci . Antes mesmo de eu a ver , reconheci o carro parado lá fora à chuva e o homem que fumava e uma cabecita de criança encostada ao vidro , talvez dormisse .
- O meu marido disse-me para vir falar consigo . Precisamos de dinheiro para comprar um presente para a menina , comida e os medicamentos , talvez alguma gasolina . Eu subo e fico consigo uma hora e ele espera-me ali.

S.T , In «Nove histórias» , todos os direitos reservados  

Sem comentários:

Enviar um comentário