quinta-feira, 23 de maio de 2013


1 comentário:

  1. « Quem vem pela mariahilfestrasse à noite , no último eléctrico , depois de ter assistido a um concerto na Karlkirsche - dá-se de súbito conta de um mundo numa mudança voraz . Não sei se vai para a ruína , se para a glória - esta noite , por condescendência da música , digo que está preso por um fio . Mas não é possível ignorar a horde dos bárbaros , entre os bárbaros. Os bárbaros que vieram da Turquia e de Marrocos e mais longe ainda , de lá das areias do deserto , bárbaros que falam alto ao telefone numa língua irreconhecível e comem refeições preparadas no banco dos transportes públicos e arrotam alto e atiram as sobras pela janela como se cruzassem o Bósforo ou um mercado em Dakar . Que mijam nas esquinas menos iluminadas e vagueiam pelas estações de comboio à cata das sobras e dos cestos de lixo , eslavos, russos também , gente com os olhos rasgados e a pele escura . Estes bárbaros que se reproduzem como se fosse uma ordem divina o milagre da multiplicação e criam os filhos sob os rígidos preceitos do credo que professam e os levam à mesquita pela mão e para as madrassas os varões , criando os homens para a guerra e as mulheres para servir . Estes bárbaros que altercam e blasfemam e bebem alcool e desrespeitam os jejuns e fornicam com as mulheres de olhos claros e blue Jeans - as mulheres dos outros bárbaros - estes que um dia julgaram serem deuses - ou demiurgos - e erigiram as super-cidades e catedrais e jardins magníficos com estátuas cintilantes e concertos para clavicórdio e violino , e quiseram criar o super-homem à sua semelhança , mataram assim milhões quando éramos todos iguais . Por ironia do destino , para a vergonha de uns e exultação dos outros , os bárbaros vivem agora entre si . Oxalá se misturem de uma forma mais harmoniosa . E um dia , no futuro , todos se façam engenheiros de pontes e músicos e matemáticos e frequentem a ópera aos domingos e às sextas a mesquita , e possam ouvir Mozart ou o Corão sem contrariedade e as filhas dos bárbaros venham a ter os olhos claros e os cabelos loiros e andem de rosto descoberto e possam até mudar de religião e conduzir carros e olhar nos olhos , os homens que passam . Que não há mudança verdadeira sem resignação e complacência , sem humildade - eu não sou daqui - trago os olhos húmidos da música que esta noite se meteu adentro pelo meu coração , sou outra espécie de bárbaro , não vim para ficar . Pudesse simplesmente vir a haver um pouco menos de ignorância , de horror - um pouco mais de humanidade , entre quem deixo para trás . » ( S.T. , Os diários de Rapa Nuï )

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