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sexta-feira, 5 de setembro de 2025




" (...)  passaram as atalaias e a figueira selvagem sacudida pelo vento , sempre para longe da muralha pelo caminho batido e chegaram às fontes do belo fluir , onde estavam as nascentes duplas que alimentavam o redemoinhante Escamandro . Uma delas fluia com água quente e à volta dela se formava vapor como fumo que surge de fogo ardente ; mas a outra até no Vewrao fluía com água fria como o granizo , ou como gélida neve ou como o cristal de gelo na água . E perto destas nascentes estavam os amplos lavadouros  , belos e feitos de pedra , onde as vestes resplandecentes vinham lavar as mulheres e as belas filhas dos troianos ; mas isso fora antes em tempos de paz , antes da chegada dos Aqueus , Por aí correram , um deles a fugir , o outro a perseguir . à frente fugia um homem valente , mas outro muito melhor o perseguia depressa : pois nao era por animal sacrificial ou pela pele de um boi que competiam prémios nas corridas de homens , mas pela vida de Heitor , o domador de cavalos . (...) " 


                                                                                                 Homero ,  Ilíada 

terça-feira, 12 de agosto de 2025



Amada vida, minha morte demora.. Dizer que coisa ao homem, propor que viagem? Reis, ministros e todos vós, políticos, que palavra , além de ouro e treva fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade , o que sabeis da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro  e os nossos ossos e o sangue das gentes e a vida dos homens entre os vossos dentes.

Hilda Hilst


sexta-feira, 24 de maio de 2024

I have done it again / one year in every ten , i manage it / dying is an art , i do it exceptionally well / I am only thirty / and like a cat , i have nine times to die . / This is the number three .

                                                                                                                                              ( Sylvia Plath )


( Estou na extrema da América do Sul , vindo de Ushuaia e mais de lá  . Vi as balizas luminosas de Les Éclaireurs e as baleias brancas do Melville . Viajo para o Norte . É a minha terceira viagem num barco de cabotagem , depois de Kisangani e das costas da Escandinávia . O palácio dos pássaros é um barco encalhado num fiorde chileno , perto de Puerto Eden. Passei por ele às seis da manha - ou teria sido ele quem passou por mim - surpreendido pelo frenesim de asas ,  já a luz do verão a todo o lado chegara . Cresciam-lhe árvores altas e ervas no convés , como se a terra firme se nao rendesse à água e houvesse ali um pacto secreto de paz entre os animais . É o espanto que me traz vivo . Parado, definho : morro entre as viagens . )




sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Jornal

 «As funções duplas do padre, o qual é simultaneamente "inspector das coisas vagas" e médico das almas, foram distribuídas no mundo moderno sem padres e são exercidas não por uma classe de homens mas por muitas. Na sua qualidade de administrador de sacramentos e intérprete do mistério circundante, o padre é representado agora, bastante inadequadamente, pelo artista. A extraordinária e bastante desproporcionada importância atribuída pelo mundo contemporâneo aos artistas como tais, sem olhar ao seu mérito, é devida ao facto de o artista ser o evocador daqueles estados emocionais que são o divino. É verdade que o deus que evoca é muitas vezes um deus de paupérrima qualidade. Considere-se, por exemplo, a deidade implícita na novela de maior venda ou a balada popular. Contudo, para aqueles que são constituídos de maneira que sejam capazes de gostar dessa espécie de deus, essa é a espécie de deus de que eles irão gostar. Há uma hierarquia tanto entre os deuses como entre os homens. Aqueles cujo lugar na hierarquia humana é inferior, adoram deuses cujo lugar na hierarquia corresponde à deles. Os padres-artistas que evocam deuses inferiores para adoradores inferiores são eles próprios inferiores. Todavia, seja qual for a qualidade do deus evocado, o acto do artista é sempre sacramental. Ele produz genuinamente um deus de qualquer espécie. Daí a sua importância no mundo moderno. O seu nome está escrito em letra grande nas páginas do Who's Who; os anfitriãos convidam-no para jantar; os escritores tagarelas relatam os seus feitos na imprensa; correspondentes desconhecidos escrevem-lhe acerca das suas almas e pedem-lhe um exemplar da sua fotografia; as raparigas estão dispostas de antemão a apaixonarem-se por ele. Para o artista que goza desta espécie de celebridade, o mundo moderno deve ser um verdadeiro paraíso.O padre é um confessor, assim como um intérprete de mistérios. O artista pode encontrar meio de desempenhar as suas funções sacramentais, mas falta-lhe a espécie de treino e saber que torna um homem apto a ser um director de consciência. Foi ao advogado e ao médico que o padre legou esta parte dos seus deveres. O médico, e principalmente o especialista dos nervos, ocupa uma posição extraordinária no nosso mundo. O seu prestígio foi sempre elevado, mesmo durante aqueles períodos em que as doenças do espírito eram tidas como estando fora da sua jurisdição. Agora que o exorcista está extinto e o confessor é uma raridade, agora que a psicoterapia se proclama ela mesmo uma ciência e uma arte regular, o prestígio do médico duplicou. A sua posição no mundo moderno é quase a do curandeiro entre os primitivos.Com o declínio do poder sacerdotal a importância do advogado também aumentou. O advogado da família assume responsabilidade vicarial pelos actos dos seus clientes. Ele é o recipiente dos seus segredos mais íntimos; ele dá-lhes não simplesmente conselho legal mas até moral. Os sacerdotes podem desaparecer; mas o número de pessoas que não gostam de responder pelas suas próprias acções, que se esquivam a tomar decisões e desejam ser conduzidos, não diminui. O director de consciência surgiu como resposta a uma genuína necessidade humana. O médico e o advogado preenchem entre eles o seu lugar vago.»

 Aldous Huxley, "Propper studies" 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Jornal

 " (...) Os preparativos foram demasiado minuciosos , demasiado demorados para o meu gosto. Nos últimos dias já nao conseguia dormir nem ler , já só respirava aos haustos profundos e oprimidos . Tinha necessidade de partir imediatamente , e de me agarrar bem alto à bossa de um camelo , mergulhar nessa imensidão desértica onde os homens , os animais , a água , a areia e o ouro têm todos a mesma cor  . , o mesmo valor , a mesma insubstituível futilidade. Depressa descobri que também nos podíamos deixar engolir na caravana , quando os companheiros de viagem sabem que deverão durante semanas e meses caminhar na mesma direção , enfrentar os mesmos perigos , viver , comer , rezar, divertir-se , penar , por vezes morrer juntos . Deixamos de ser estranhos uns aos outros e nenhum vício se mantém escondido , nenhum artifício persiste . Vista de longe a caravana é um cortejo . Vista de perto, é uma aldeia com as suas bisbilhotices , os seus gracejos , as suas alcunhas , as suas intrigas , os seus conflitos e as suas reconciliações , os seus seroes de cantigas e de poesia. Uma aldeia para a qual todos os países estão longe  , mesmo aquele de onde se vem , mesmo aqueles que se atravessam .(...)  "  ( Leão , o Africano. Amin Maalouf )

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Por muitos anos acreditei que a natureza das pessoas e a consistência dessa natureza , acompanhavam a minha vida . Estava enganado . Vou com poucos , com cada vez menos . E de quem me afastei - ou de mim se afastou - desses , mais não tenho senão a estranheza de os ter amado ou odiado . Só os mortos serão os que foram , cristalizados onde se lhes acabou o impulso . Baudelaire escreveu que quem nãop soubesse povoar a sua solidão , não conseguia isolar-se entre a gente . Eu estou no estado-da-arte . Reconheço que tudo há-de ser passageiro e transitório . Pouco a pouco - de uma forma imperceptível - resumo-me : sou a criança sozinha .       

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Inventário


As estátuas dos dragões na praça de Durbar quando lhes poisa o sol nas primeiras horas da manha , A ilha de Java  . Bali. Borobudur . Os dançarinos Kecac . Husey . Pisac .Uma paixão insensata. O arquipélago de Svalbard . O paralelo oitenta a bordo do navio postal Nordstjernen .Todas as histórias do Corto Maltese e do Enki Bilal. A estrada sessenta e seis. Praga e os seus telhados. Uma moto de engenharia alema , com os cilindros opostos. . A Bolívia. Voar ( ser o Icaro por instantes - sem caír ) . Taormina , Palermo , Catânia ,o vale dos templos Agrigento  .A Compostela . As muralhas de Dubrovnik e aquela gravura em relevo da Fortuna , numa praca de Split , quando as sombras enganam .Rapa Nuï : a ilha da Páscoa .Os Jardins de Esmirna . Um loft junto ao rio Tejo . Sevilla,naranjas y un reloj terco. Inês . O cabo Horn e os seus fantasmas. Pemba . As portas de Tétouan,os vendedores de tapetes dos soukhs e um chá de menta. Os opiários de Macau & os incensários de Lotse. A biblioteca de Babel .Os livros do desassossego : Alvaro de Campos , mas também Borges , Paul Eluard , Dylan Thomas . A ilha de Oeno . As cidades geladas do Báltico .O extremo Oriente. A grande alegria , Os palácios de Inverno do Czar Alexandre . Glen Coe . Uma viagem de circum-navegação. Uma viagem de elefante . Saigão . O expresso da reunificação . Angkor Wat . Café quente.  O mar de coral . A grande muralha da China , As ilhas salomão . Um jardim de chá. Champagne. Absinto. Nougat. Brie & confit de mirtilles. O monte Fuji .La Digue. Moscovo . São Petersburgo . A baía da Guanabara. Memórias de Montevideu. O langor do ópio. A linha de Capricórnio. Masai Mara. Abidjan . Os mortos de Moria  . Um jardim tropical . Uma mulher impaciente. Os lugares aonde nunca fui. Uma casa na montanha . Um coupé dos anos setenta. Um curso de vela nos mares do Norte no meio do Inverno  .Uma lareira e uma pequena biblioteca e um relvado . Um  casal de faisões e uma Delonix Regia florida . Um conta bancária em Berna . La sereníssima. A pequena sereia e os lagos que Nils Olgersson sobrevoou com Akka. Dubrovnik. Leopoldville. A India , As portas de Brandenburgo e os clubes nocturnos de Jazz em Berlim .A belíssima acrópole , Um Jack Russell chamado Bóris Godunov e um gato persa de olhos doirados que se há-de chamar Arquimedes ( labradores nunca mais.). Sidney , A grande pirâmide de Queops , Auckland. Em Varanasi : o Ganges. O teste de Cooper simplificado . As estradas de montanha dos Alpes aonde morreram os elefantes de Aníbal .Zanzibar . Loch Ness. Mariana . Uma tempestade no mar alto , e eu era o homem do leme . Os blues de Nova Orleans. Machu-Pichu ou outra cidade proibida , Chefchaouen , Potosi . Uyuni . Atacama . Delhi. Bora-Bora. Sarajevo . Fitzroy . Mahé . As manhãs de Roma , e as estátuas dos Dioscuros que brilhavam nas praças . O canal do Panamá . Ushuaia. Talinn. A aurora boreal e a austral também  , porque não ? . A cidade do cabo . As montanhas do Laos . Huancayo . Os mosteiros todos de Luang Prabang . Triglav , os Alpes Julianos . As variadas linhas do Equador. Córdoba . Granada. Os surrealistas franceses & os clássicos russos. Angkor Wat . Os órfãos de Fuerteventura. Porto Alegre . A descoberta da cura do cancro . As medinas azuis do Riff. Um chá no deserto . Stonehenge .O país basco . As ilhas gregas , Lesbos , Mykonos , Santorini , Ikaria , khoufinisia , Amorgos. O Inverno em Sigulfjordur .Rannoch Mor . Casablanca . Inongo , o lago Mai N'dombe e um retrato dos meus pais no ano de mil novecentos e sessenta e dois . O estreito de Magalhães. As ruas de Lisboa. Uma caneta chamada Edgar Allan Poe. Um relógio de corda . Ronda . Reykyavicq . Um tarot de Marselha. A Patagónia Argentina . Istanbul : a grande mesquita azul . Santiago do Chile. Uma casa chamada «La Javannaise» . Ana Leonor . As estranhas linhas de Názca . Um veleiro azul & branco que se há-de chamar Birgitte . O fim da fome ou , no mínimo , a democratização da saciedade. Paris e algumas estultícias. A prisão na tua ausência & a liberdade nos teus braços. Rapa Nuï . Um lago chamado Baikal . Arles , Luang Prabang , Borodur , Cartago , Te Anau ( Milford Road - Fjordland ) , Bagan , a Shangri La . Tahiti , O mar vermelho. A grande barreira de coral. A tristeza,às vezes, nos (m)teus olhos. Búzios. Um cigarro de haschisch. O desejo mortificado . Um grande desprendimento. Titicaca . Ulururu . Nullarbor. Uma viagem de balão . João Rui . O propósito da chuva que cai no mar. Um quarto na América do Sul e ouviam-se pássaros e o trote de um cavalo todas as manhãs,nunca cheguei a saber se faziam parte da minha imaginação. O Rio de Janeiro. A cidade do México . Angra dos Reis. Os cinco devires. Amesterdão. Os lagos andinos . O rio das pérolas . San Carlos de Bariloche. Cinqueterre . A costa de Amalfi e as suas tergiversações. O eléctrico 28 . Hannói. Jerusalém . Abbou Simbel. A tua alma ou um pedaço dela. Nova Iorque e uma garrafa de vinho. Petra . Alguns amigos. La Digue. Porto Santo . Um livro escrito até ao fim. Uma pequena biblioteca ( com estantes altas ) no meu coração . Francisco .O tango . As ruas de Buenos Aires . O circulo polar ártico . As núpcias do desencanto. De Bergen a Kirkenes ( a viagem mais bonita do mundo ) Budapeste. O outono em Pequim . O Transiberiano e os seus apeadeiros , A esfinge de Ghizza , O Taj Mahal , As ilhas Marquesas .  " . A América do Norte : Yosemite , Yellow Stone , Grand Canyon  . O torpor depois do amor . A rainha do gelo . A senhora do frio.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

" (...) Nao amei o suficiente quase nada / para conhecer preciso de uma relação assídua / nunca apanho nada a primeira / deixo passar o encrespar se do momento / retiro me / só existo mergulhando em algo / e por vezes é já inútil / foi se a verdade para o fundo mais prosaico / amorteci demasiadas coisas para as ver/ amorteci o brilho julgando-o um ornato e quando me deixei seduzir pelo mais simples / o meu amor pela profundidade , entorpeceu-me " Fábio Morábito

segunda-feira, 2 de outubro de 2017


" Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória. Não é isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, não é de admirar. Aqui, porém, o espírito é a memória. Efectivamente, quando confiamos a alguém qualquer negócio, para que se lhe grave na memória, dizemos-lhe: «vê lá, grava-o bem no teu espírito». E quando nos esquecemos, exclamamos: «não o conservei no espírito», ou então: «escapou-se-me do espírito»; portanto, chamamos espírito à própria memória. Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo? (...) E mesmo quando falo no esquecimento e conheço o que pronuncio , como podia reconhece-lo , se dele não me lembrasse ?  Não falo do som desta palavra , mas do objecto que exprime . Se o esquecesse , não me poderia lembrar do que esse som significava . Ora, quando me lembro da memória , esta fica presente a si , por si mesma . Quando me lembro do esquecimento , estão ao mesmo tempo presentes o esquecimento e a memória : a memória que faz com que me recorde , e o esquecimento que lembro. (...) A memória retém o esquecimento . " ( Santo Agostinho , Confissões )  

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.
Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo.
O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro.
Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes, (...) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz (como não pensar é a parte melhor, de ser rico).
Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. (...) Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos.(...)" Bernardo Soares , in O livro do desassossego .

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015



« Passamos Sverdlovsk esta manhã , a fronteira da Asia , o comboio chegou a Omsk . Há três dias que vamos num grande vagar , numa viagem verdadeiramente contemplativa , depois da paisagem , só o chá e os livros e talvez um copo de vodka ou um jogo de cartas matam o sono e o tempo . Passamos por cidades pequenas - como Tobolsk , onde nasceu Mandeleev , o inventor da tabela periodica - e campos cheios de betulas e tilias com as folhas amarelas e vermelhas e violeta , pequenas casas de madeira sucedem a paisagem . casas pintadas de azul e verde , como se saissem de um quadro desses velhos pintores flamengos , Brueghel o velho . O resto sao os pássaros , a taiga e o vento . Marina telefonou-me , a voz já distante . Certas noites eu nao adormeco , ciente do quão longe eu estou dos que alguma vez esperaram por mim . »


 

sábado, 27 de setembro de 2014


Serão os gatos todos como eu , fartos de imaginação ? A mim me parece que sim , se observo o gato Francisco no quintal fazendo saltos acrobáticos ou escondido - à espera , emboscado . Julga-se um tigre na caça ; e os grilos e as centopeias e as ervas que baloiçam com o vento , hão-de ser presas formidáveis , as mais difíceis de apanhar . 
O M. e a T. foram-se ontem á noite embora , no ferry que liga as duas ilhas . Tinham-me vindo visitar por um par de dias ; perderam a melhor manhã de praia , desde que saímos daquele rio em Luang Prabang , e viajàmos de elefante . Faz sol aqui . Um Verão inusitado .
Doi-me imenso estar parado , não sei lidar com a inacção : adoeço ou convalesço.
Se olho para ti , não te reconheço nas fotografias , em qual dela tu fosses a mais bela . É como se me lembrasse de algo diferente do que foi e existiu : como quando eu fecho os olhos e tudo me parece melhor e inequívoco . Nunca cheguei a saber se exagero o que vivi ou se foi de facto como o sei.
Esforço-me sobretudo por não me desiludir - deve ser por isso que olho com  tanta atenção a vida , à procura do que me volte a deslumbrar . Consegues imaginar o quão difícil foi , contentar-me ?
Esta noite sonhei que ia num comboio desde a Cracóvia a Istanbul . Era o meio do Inverno , o lugar do passageiro ao meu lado estava vazio . Da vidraça da janela tudo era branco , brancas as árvores , brancos os telhados das casas , branco também o futuro , transformado numa colina . Acordei com o coração em sobressalto , expectante , não cheguei a saber o que escondia . » 

( S.T. Os diários de Rapa Nuï )

quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Já não leio, imagino unicórnios , Imagino lagos de águas escuras e flores-do-lótus iridiscentes , nenúfares , cidades antiquíssimas. Nada se repete e aperfeiçoa , senão por imaginar .Se estive aqui ? que importa ? : onde regresso tudo há-de ser diferente .Alguém um dia escreveu que o oposto do aborrecimento - numa palavra - era , não o prazer , mas a agitação Outro jurou que a felicidade estava na monotonia.. Está tudo explicado . Aos indecisos eu digo , que só no exemplo dos outros - vezes e vezes sem conta - é concedido o favor de aprender sem dano ou de exultar sem ter experimentado ." ( S.T. Os diários de Rapa Nuï )

sexta-feira, 30 de maio de 2014

« La tierra giró para acercarnos / giró sobre sí misma y en nosotros / hasta juntarnos por fin en este sueño , / como fue escrito en el Simposio. / Pasaron noches, nieves y solsticios; / pasó el tiempo en minutos y milenios. / Una carreta que iba para Nínive / llegó a Nebraska. / Un gallo cantó lejos del mundo, / en la previda a menos mil de nuestros padres. / La tierra giró musicalmente / llevándonos a bordo; / no cesó de girar un solo instante, / como si tanto amor, tanto milagro / sólo fuera un adagio hace mucho ya escrito / entre las partituras del Simposio. »
 ( Eugénio Montejo )

sábado, 26 de outubro de 2013


    Esta casa , está cheia de retratos vazios e de conspirações inúteis . Bebo café , como antigamente - na minha sala de estar . A paisagem é de um cipreste e um farol familiar - e o mar quase sempre iridescente . 
      Trinta e nove dias depois , a posição do sol mudou 20º por referência a Nascente  Este é o único vestígio físico que encontro e que faz prova que estive ausente daqui . Noutro tempo que fui , ainda estaria exultante , ébrio das paisagens que vi . Mas estou sempre igual agora , exânime serei . 
     Peço livros e barcos emprestados - um dia jurei de ter uma biblioteca só para mim , confesso porém : tornei-me um perjuro . (...) A minha religião é contemporizar . Uma vez por mês , abro uma garrafa de vinho caro e bebo-a ás escondidas , porque não tenho com quem . E se nos outros dias observo a frugalidade , sou como esses de quem fala o Platão : forte por medo e temperante por intemperança . 


      S.T. , Nove histórias 

sábado, 5 de outubro de 2013



( Poema da barbacã . )

« Antes de ti , ria-me dos exércitos que conheci . Divertiam-me os cercos e as investidas e a fome que roía os sitiados . A minha altura era a metade já da sua derrota . Mas tu , um simples peão , o que foste fazer ? Um soldado a pé com uma lança , descobriu a minha ruína . »  

S.T. , Nove histórias

segunda-feira, 30 de setembro de 2013



  «A luz daqui é extraordinária , talvez que por estarmos tão perto do pólo aconteça assim , nao sei que outra explicação possa dar . Em todas as viagens que fiz , não encontrei uma luz tão suave . Em Husey , o ar era azul .
     Husey é o nome de uma quinta , no Nordeste - ocupa um fiorde inteiro . A ilha é de tal forma enorme e despovoada , que constam na sua cartografia os nomes de todas as quintas existentes . São assim , de alguma forma , aldeias de laboratório , o protótipo das futuras cidades . Os donos - Laufn e Onn . e os dois filhos , vivem na casa principal que fica contígua ao pequeno hostel que exploram nos meses de Verão . Vivem aqui o ano inteiro , tomam conta de oitenta cavalos , 30 ovelhas , uma vaca leiteira , galinhas , pombos , patos , um cão pastor das Shetlands e uma foca bebé , adoptada . Durante o Verão , dois auxiliares são contratados para ajudar na administração da propriedade .
    Uma grande quantidade de arrojos chegam às praias depois do Inverno . Chegam dos mais insuspeitados lugares , trazidos por um mar implacável : da Sibéria e da Noruega e também do Canadá - madeira sobretudo , enormes troncos - Muito deste material é aproveitado há décadas pelos locais - serve como material para construção de currais , cercas , postes de iluminação ou simplesmente combustível , para as semanas mais frias do ano .
     Pergunto a Laufn , como é a vida na quinta durante o Inverno , os olhos dele brilham : - Em Setembro chega a neve , e tudo fica branco , diz-me . Os filhos vao a escola e a casa fica quente , cuidamos dos animais com a forragem que guardamos e temos mais tempo para conversar . Depois , abre ainda mais o sorriso - e acrescenta : - No Inverno , não vem ninguém . »  

S.T. Nove histórias 

sábado, 21 de setembro de 2013

" Depois de assim me ter assegurado destas máximas e de as haver posto à parte  com as verdades da fé - que sempre foram as primeiras na minha crença - pensei poder começar livremente a desfazer - me de todas as restantes opiniões . E, como esperava chegar melhor  a uma conclusão conversando com os homens do que ficando mais tempo fechado diante do fogão onde tivera todos estes pensamentos , retomei a viagem ainda o Inverno não tinha bem acabado . E, em todos os nove anos seguintes , não fiz outra coisa senão girar pelo mundo , procurando ser mais um espectador do que um actor em todas as comédias que nele se representam . Reflectindo particularmente em cada matéria sobre o que a podia tornar suspeita e dar-nos ocasião de nos enganarmos , ia entretanto desenraizando do meu espírito todos os erros que nele se haviam introduzido anteriormente . Não que eu imitasse por isso os cépticos , os quais só duvidam por duvidar e afectam estar irresolutos . Pelo contrário, todo o meu propósito tendia a possuir a certeza , a rejeitar a terra movediça e a areia , para encontrar a rocha e a argila. Segundo me parece , isto resultava bastante bem , tanto que , procurando destruir a falsidade ou a incerteza das preposições que eu examinava - não através de débeis conjecturas , mas de raciocínios claros e seguros - por mais duvidosas que as encontrasse , tirava sempre alguma conclusão bastante certa , pelo menos a de que ela não continha nada de certo. E, tal como quando se demole uma velha moradia , se guardam os materiais para serem utilizados na construção de uma nova , assim eu , destruindo todas aquelas minhas opiniões que julgava mal fundamentadas , ia fazendo diversas observações e adquirindo muitas experiências que mais tarde me serviram apara estabelecer opiniões mais certas . "              

( René Descartes , O discurso do método .  )
Tu  chamavas-me «meu sol» , « meu húmus» , « minha chuva» . E eu me sintia díspar , como se já soubesse então que a natureza - de se repetir - nos leva aos lugares mais comuns . Tu não conhecias tantas palavras assim : o teu corpo  fazia-te pródiga , magnânima , reconhecida : eu não era seguramente o que tu dizias . Mas também eu já tinha sido estrangeiro numa cidade feliz e estivera nesse exagero . Se   amava ou adormecia , eu era uma árvore , uma erva , uma rosa presa à terra , numa inquebrável convicção . Durante muito  tempo vivi perplexo com tudo isso , como se eu fora uma planta tenra , intrigado de me sentir repleto com tão pouco , um fio d ' água , um astro , um lugar . Não voltei a esse estado de graça onde tu agora estás e hás-de necessariamente ser arrebatada porque és nova : a vida está sempre a mudar . Lembra-te : só quem se esquece torna ao país da saciedade  . Ser até só , irremediavelmente , mas ser contente : nisso insisto ,  nisso escrevo , nisso  atento . ( ST. Nove historias ) 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013


Desde o primeiro dia que sabia que havia de ser assim , a vilegiatura da dôr . Foi-se embora sem me avisar , essa dona da ubiquidade . Está pois vago o meu coração , soube-o esta tarde porque me perguntei . E isto é um segredo , pequeno júbilo , alento e susto , não o digo a ninguém . Retomei a posse do que era meu . Desse quarto nas águas furtadas - onde ela dormia enquanto eu vivia e o contrário também era costume acontecer - farei uma pequena sala de estar , forrada com papel de flores e livros e uma gaiola com pássaros de cartolina e um astrolábio e uma pequena árvore de cannabis, não quero mais inquilinos , nem contratos , nem enganos , talvez um gato sim ou um aquário cheio de peixes quietos : tenho menos medo do silêncio do que tenho medo de mim .  ( S.T. , Os diários de Rapa Nuï )