sexta-feira, 14 de outubro de 2011

« Desperto num frenesim ,  aflito , sem encontrar sentido para o que vou fazer a seguir . É o mesmo todas as manhãs . Sei de côr o que me vai acontecer , como tudo se vai passar . Tomo banho , barbeio-me , visto-me , fecho a porta da entrada à chave , saio devagar para a rua . Tomo um croissant e um café , leio o jornal , trabalho até às cinco - outras vezes a noite toda - volto para casa , janto , deito-me , apago a luz do quarto , adormeço sem me lembrar das horas que precedi . Vou e volto todos os dias nisto - sem assombros ou afectos . Se levanto os meus olhos , logo os poiso outra vez , nada me prende , pouco me toca , talvez um risco de avião por cima dos telhados das casas ,  uma discussão viva , certa e indefinida esperança , a tua fotografia , mas logo depois esmoreço . No fim de cada mês - em cada dia 21 - vou ao banco e guardo certa soma que idealizei ( o necessário para um dia poder comprar um barco de 38 pés e o sustento por dois anos no ultramar ) . Todos os meses me rio desse ganho e descreio quando avalio o que me falta guardar , em esforço de tempo e de guerra . Ainda assim teimo em consistir , leio e escrevo e viajo , nisto espero uma certa manhã de embarque em que me irei daqui . Escrevo por necessidade , leio por educação , viajo por gosto . Engano o desengano , este foi o meu método até aqui . Duas vezes por ano , saio da vida dos que eu conheço - desta vida que eu não sei - para ir ser estrangeiro num outro lugar . Passo meses a fio a estudar estradas e mapas e cidades insuspeitas onde ninguém me olhe e reconheça ( uma vez , numa praia do Uruguai , longe de Montevideu , encontrei o meu vizinho do segundo andar ) . No reflexo de mim ao espelho - nas manhãs em que estou lúcido - vejo esta imagem do absurdo , do fugado que se entregou . Não estranho de estar assim sozinho - como se eu estivesse para acontecer - estranho já estar à beira deste estado de graça e hesitar , como se a liberdade fosse um abismo e eu tivesse medo da voragem . Estou tão longe de mim que me transtorna , a minha paciência morre agora no vão da porta . Querer não basta , alguém me disse , sinto que algo se desmoronou , o quê ? Falta-me a disciplina dos revezes , o jogo da espera , a maneira diversa , o expediente acrescido para arrostar com esta lentidão com que eu vou ao meu encontro .  Se prossigo debando - querer não basta - dormirei agora e buscarei depois. Este caderno não acaba aqui .» 

S.T. , in Os diários de Rapa Nui

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