segunda-feira, 22 de setembro de 2014

" Mandaram-me fazer um electroencefalograma para ver como ia o meu ritmo alfa . Eles tinham desconfianças , falavam de estados crepusculares . Divertido . Não havia estados crepusculares , o ritmo alfa ia bem . Cumprimentaram-me muito . « A sua cabeça está firme » .  Porreiro . Eu tinha uma cabeça firme . Era uma coisa alegre . Encontrei-me ainda algumas vezes com o psicanalista . Nessa altura ele interessava-se pelo apocalipse . Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos , sobre os cavalos , os sete candelabros , os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os cabelos das mulheres . Eu saía do consultório fervendo de inspiração . Escrevi enorme poemas apocalípticos , e o psicanalista pôs-se a examiná-los . Foi um bom tempo. Mas eu tinha uma cabeça firme , um belo ritmo alfa . Então , com a minha firme cabeça , comecei a pensar na morte . Estudei os melhores venenos em livros da especialidade , as mais subtis combinações de drogas e , com receitas que arranjava entre os médicos amigos , organizei uma boa colecção . Gosto da palavra suicídio . A frequência dos iis como golpes , as duas sibilantes e a última consoante , malignamente dental , fascinam-me . Mas bastavam-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais . Como alegria , imaginei : uma cidade marítima com brancas torres espancada pela luz , navios saindo das águas vibrantes para todas as partes . Havia uma árvore sumptuária no meio da cidade . Na Primavera cobria-se de espinhos e dava flores monstruosas cor de púrpura . As mães não deixavam as crianças brincar perto da árvore . Durante dias e dias , a luz espancava a cidade . Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores . Vagueava pelas ruas . Entrava em todos os bares . Os bêbados formam uma maçonaria . Andávamos pela cidade à procura uns dos outros , bebíamos no meio de inextricáveis conversas . Um deles disse-me que eu tinha um espírito religioso . Gostei. Ficámos amigos . Passámos a beber juntos , falando do espírito religioso . «Também sou um espírito essencialmente religioso » , disse-me ele uma noite quando já nos movíamos como batráquios num pântano de cerveja . E eu confessei que a minha juventude fora uma viagem violenta e fulminante através de medos e alegrias brutais . «Estive no meio do escuro, não podia dormir . Ou tremia apenas do júbilo de ter um corpo, uma voz , de viver entre luz e chuva e grandes núvens sobre os campos » . O costume . Comecei a estar farto . Enfim , uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória , para a obliquidade das invenções avulsas , a trivialidade dos equívocos da emoção . Chateia-me ser um pequeno monstro sensível . «Merda» , disse eu - « tenho uma cabeça firme , não me vou deixar apanhar por tentações biográficas , a memória  , os mitos que as culturas - marginais ou não - parecem querer que eu adopte . Não sou um símbolo da imaginação alheia » . « Bebe » . Respondeu o amigo. «Não bebo mais . Estou farto . Vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito , estou cansado de me mexer . » Depois apareceram as pessoas que ajudam , que têm planos para a nossa glória . Comecei a ter medo . Então , fiz a mala . «Merda , merda , merda » , sibilava baixinho . Esta é realmente , a minha embaraçosa chegada à maturidade . Não serve para espectáculo , nem dá nada como exemplo ou símbolo . Tenho de inventar a minha vida verdadeira . "  ( Herberto Helder , Photomaton & Vox ) 



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