domingo, 8 de novembro de 2015

« (...) Sinto-me confundido por recebê-lo de cama. Não é nada, um pouco de febre, que eu trato com gin. Estou habituado a estes acessos. Paludismo, creio, que contraí no tempo em que era papa. Não, não gracejo, senão em parte. Sei o que está a pensar: é muito difícil distinguir o verdadeiro do falso no que conto. Confesso que tem razão. Eu próprio… Olhe, uma pessoa das minhas relações dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada que esconder a serem obrigados a mentir; os que preferem mentir a não ter nada que esconder; e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. Deixo à sua escolha o compartimento que mais me convém. Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas ao mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro por vezes naquele que mente do que no que  fala a verdade. A verdade, como a luz, cega. A mentira, pelo contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objecto. Enfim, entenda como quiser, eu fui nomeado papa num campo de concentração. Sente-se, por favor. Está a olhar a sala. Despida, é verdade, mas limpa. Um Vermeer, sem móveis nem panelas. E também sem livros, eu deixei de ler há muito tempo. Antigamente, a minha casa estava cheia de livros lidos pela metade. É tão repugnante quanto essas pessoas que apenas beliscam um foie gras e mandam deitar fora o restante. Aliás, agora só gosto de confissões, e os autores de confissões escrevem sobretudo para não se confessar, para nada dizer do que sabem. Quando pretendem passar à confissão, é o momento de desconfiarmos, vão maquilhar o cadáver. Nada de desculpas, nunca, para ninguém, eis meu princípio, de começo. Nego a boa intenção, o erro digno de estima, o passo em falso, a circunstância atenuante. Comigo não se abençoa, não se distribui absolvição. Faz-se a adição, simplesmente, e depois: “Dá tanto. O senhor é um perverso, um sátiro, um mitómano, um pederasta, um artista etc.” Assim mesmo. Com esta secura. Em filosofia como em política, eu sou, pois, a favor de qualquer teoria que recuse a inocência ao homem, e a favor de toda prática que o trate como culpado. Tem em mim, meu caro, um partidário esclarecido da servidão. Sem ela, para falar verdade, não há solução definitiva. Depressa compreendi isso. Antigamente, eu só tinha liberdade na boca. No café-da-manhã, eu passava-a em minhas torradas, mastigava-a durante todo o dia, levava para toda a parte um hálito deliciosamente refrescado, a liberdade. Descarregava esta palavra-mestra sobre quem quer que me contradissesse, eu tinha-a colocado ao serviço dos meus desejos e do meu poder. Murmurava-a na cama, ao ouvido adormecido das minhas companheiras, e era com sua ajuda que eu me descartava delas. E destilava… Oh!, excito-me e perco o sentido da medida. No fim de contas, aconteceu-me fazer da liberdade um uso mais desinteressado e até, avalie minha ingenuidade, defendê-la duas ou três vezes, sem chegar, lá isso é verdade, a morrer por ela, mas correndo alguns riscos. Tem de-se me perdoar estas imprudências; eu não sabia o que estava a fazer. Não sabia que a liberdade não é uma recompensa, nem uma condecoração que se festeje com champanhe. Nem aliás, um presente, uma caixa de bombons para lamber os beiços. Oh, não, é uma estopada, pelo contrário, e uma corrida de fundo, bem solitária, bem extenuante. Nada de champanhe, nada de amigos que ergam a sua taça, olhando-nos com ternura. Sozinhos numa sala sombria, sozinhos no banco dos réus, perante os juízes, e sozinhos a decidir perante nós mesmos ou perante o juízo dos outros. Ao cabo de toda liberdade, há uma sentença; eis por que a liberdade é pesada demais, sobretudo quando se sofre de febre, ou nos sentimos mal, ou não amamos ninguém. (...) »  ( Camus,  «A queda»  )

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