domingo, 19 de fevereiro de 2017


1 comentário:

  1. " Sou já um velho guardado por velhos - à laia dos amigos - cada qual um poço sem fundo de orgulho ou utilidade sequer . Por um fenómeno atmosférico que os geógrafos saberão melhor explicar , a pressao do ar e a humidade formam como que uma lente que aproximam os objectos . Noites há que se veem circular os carros em Sao Jorge com os seus faróis intermitentes e no Fogo, os foguetes de lágrimas - se romaria e missa houvesse - viam-se aqui .Debalde : a esta ilha deserta ninguém faz por vir , perco manhas inteiras a imaginar batalhas , um conto em castelhano , como se estivesses em Lisboa e eu o lesse para ti , ou barcos que passassem ao largo , pontes que chegassem cá e ao de lá -também na curva da terra , vizinha - uma ilha do tesouro surgisse do nada ou que brotasse de um vulcão , cheia de canibais e piratas . Tudo , a fome ou outra necessidade arrebata : o quase mais é esta vida mansa de ilhéu , passeios a pé com um cao pela trela , banhos de mar e literatura ( alguma de cordel ) , coisa de entreter os dias que passam , e passam e passam , sem um susto sequer , um estremecimento. num arremedo de engano porque nao há engano sequer , já nao tenho o que esperar. Este mar , já foi um lago de gelo . "

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