segunda-feira, 2 de outubro de 2017


Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória. Não é isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, não é de admirar. Aqui, porém, o espírito é a memória. Efectivamente, quando confiamos a alguém qualquer negócio, para que se lhe grave na memória, dizemos-lhe: «vê lá, grava-o bem no teu espírito». E quando nos esquecemos, exclamamos: «não o conservei no espírito», ou então: «escapou-se-me do espírito»; portanto, chamamos espírito à própria memória. Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo? (...) E mesmo quando falo no esquecimento e conheço o que pronuncio , como podia reconhece-lo , se dele não me lembrasse ?  Não falo do som desta palavra , mas do objecto que exprime . Se o esquecesse , não me poderia lembrar do que esse som significava . Ora, quando me lembro da memória , esta fica presente a si , por si mesma . Quando me lembro do esquecimento , estão ao mesmo tempo presentes o esquecimento e a memória : a memória que faz com que me recorde , e o esquecimento que lembro. (...) A memória retém o esquecimento . " ( Santo Agostinho , Confissões )  

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