sábado, 27 de setembro de 2014


Serão os gatos todos como eu , fartos de imaginação ? A mim me parece que sim , se observo o gato Francisco no quintal fazendo saltos acrobáticos ou escondido - à espera , emboscado . Julga-se um tigre na caça ; e os grilos e as centopeias e as ervas que baloiçam com o vento , hão-de ser presas formidáveis , as mais difíceis de apanhar . 
O M. e a T. foram-se ontem á noite embora , no ferry que liga as duas ilhas . Tinham-me vindo visitar por um par de dias ; perderam a melhor manhã de praia , desde que saímos daquele rio em Luang Prabang , e viajàmos de elefante . Faz sol aqui . Um Verão inusitado .
Doi-me imenso estar parado , não sei lidar com a inacção : adoeço ou convalesço.
Se olho para ti , não te reconheço nas fotografias , em qual dela tu fosses a mais bela . É como se me lembrasse de algo diferente do que foi e existiu : como quando eu fecho os olhos e tudo me parece melhor e inequívoco . Nunca cheguei a saber se exagero o que vivi ou se foi de facto como o sei.
Esforço-me sobretudo por não me desiludir - deve ser por isso que olho com  tanta atenção a vida , à procura do que me volte a deslumbrar . Consegues imaginar o quão difícil foi , contentar-me ?
Esta noite sonhei que ia num comboio desde a Cracóvia a Istanbul . Era o meio do Inverno , o lugar do passageiro ao meu lado estava vazio . Da vidraça da janela tudo era branco , brancas as árvores , brancos os telhados das casas , branco também o futuro , transformado numa colina . Acordei com o coração em sobressalto , expectante , não cheguei a saber o que escondia . » 

( S.T. Os diários de Rapa Nuï )

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